sábado, 28 de outubro de 2017
um dia uma vida
terça, 24 de outubro.
não sei dizer exatamente que horas acordei porque, na verdade, não houve um momento em
que eu tenha ido dormir. a janela fazia um ruído contínuo e fino, irritante arranhava meus
ouvidos bem de perto. por volta das 6h paramos pela quarta vez: “vinte minutos para o café”.
lugar conhecido há mais de uma década, o mesmo posto em pirassununga onde eu costumava
tomar um expresso quando voltava de um final de semana na casa dos meus pais. no banco
do lado minha irmã dormia com a boca e os olhos entreabertos. de algum modo seu sono
desalinhado coincidia com a rigidez do meu pescoço, naquele espaço apertado e frio não havia
lugar para ele.
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era quase dez horas quando cheguei em santa cecília. o mesmo par de músicos tocava na
saída do metrô, flauta transversal e cavaco: choro. no case de veludo azul claro se
acumulavam moedas, uma máquina para cartão, me saltou aos olhos a nota de dez reais. acho
que venderam pelo menos um cd. “artista é igual a pedreiro”.
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- e o seu avô, melhorou?
- não, tá na mesma... não sei se vai melhorar, zi..
- e como foi?
- ah, difícil.. me doeu ver ele daquele jeito.. magro, sem comer, confuso, amarrado na cama..
- é difícil mesmo...
- mas a vida é essa, não é injusta. a vida é a promessa da morte.
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semana que começa na terça, atrasada num contrapé. antes de mais nada, decido desfazer a
mala. drica vem papear, acende um. trago e afrouxo um pouco. fico sozinha, fecho a porta.
junto com as roupas sujas vieram também o eco daquelas imagens trazidas de uberlândia.
penso nos meus quatro avós, todos vivos. raiz, ascendência. no quintal da minha casa futura
vou plantar uma árvore para cada um: uma romãzeira, uma mangueira, um cajueiro e uma
parreira. minhas coisas teimavam na cama, não queriam voltar para o armário. antes de
guardar é preciso ordenar, o mesmo vale para os pensamentos que me visitavam a mente.
.
demorou um pouco. sem muita fome improvisei algo na cozinha. lembrei desse exercício de
escrita que eu não tinha feito. “um dia uma vida”, pensar nisso enquanto meu avô padece
acamado no hospital ganhou outra densidade. decidi então não escrever, tem coisa que não
cabe em palavra, melhor não insistir. também não consegui dormir nenhum um pouco antes
da aula, o pensamento não cessa. saí atrasada mas lembrei de pegar as frutas.
.
depois da aula, uma cerveja com o pessoal. eu precisava ficar na rua. fomos em grupo, me
senti contente, tem coisa que só cabe em volta de uma mesa de bar. depois de algumas horas
dedicados a benjamin, debatemos a escolha da pinga que daria liga, a leveza alivia. seguimos
para um segundo boteco, era mais de meia noite. eu gosto muito do efeito frívolo que a
sucessão dos copos concede à conversa. perco as papas, atravesso fronteiras. tinha mais coisa
para gastar. a madrugada avançava veloz e eu, zonza, fui deitar desconfiada de minhas próprias afecções.
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