terça-feira, 14 de novembro de 2017

reescrita

não tenho arrumado os livros,
não há prateleira nem ordem, só espaços vazios
e as horas que não temos.

eu não te dito nada.
mas poderia dizer algo perigoso: será que cedo ou tarde nos reencontramos?

cedo ou tarde, um reencontro.
um outro ponto de partida,
quem sabe no sul da bahia, onde daqui uns dez anos estarei de volta.


sobre essas coincidências eu não sei se quando.

domingo, 5 de novembro de 2017

1/3 de sonho


éramos um grupo de cinco -
quatro homens e eu, mulher.
sentíamos fome depois de um período de trabalho intenso.
a caminhada até a margem foi longa. estávamos sentados sob a sombra, descansávamos um pouco enquanto decidíamos o que fazer.
sabíamos que naquela altura do rio os peixes são abundantes.
a coisa é que não tínhamos nada com o que pescar.

enquanto eles debatiam o que fazer, me levanto para observar mais de perto aquelas águas claras.
águas agéis, velozes entre pedras onde dava pé.
vou notando o trajeto dos peixes,
por onde fluem, por onde demoram, por onde se perdem.
percebo um canto especialmente estreito, ali certamente seria possível capturar algum.
me demoro um pouco mais para ter certeza.
então tive certeza que poderíamos pegar um peixe ali, mas duvidei instantaneamente de que eu seria capaz de fazê-lo.
convencida da minha incapacidade, nem sequer tentei, de pronto chamei o homem mais afeito aos rios.
indiquei o lugar onde os peixes se confinavam entre o fluxo e as pedras.
ele achou que não e teimou insistindo que não.
depois de se cansar tentando de muitas outras formas,
acabou por me ouvir e pegou um peixe na primeira investida.

nadando o peixe não tinha aquele tamanho todo, parecia ornamental, mas se agigantou imediato quando foi pego.
foi dífícil tirá-lo d'água pesado que era,
um peixe grande mesmo, enorme.
seu corpo era de um alaranjado intenso em fogo, com tonalidades também fortes de azul na cabeça, nas nadadeiras e no rabo.
o homem deu um jeito de amarrá-lo pela boca e içá-lo num galho de uma árvore alta perto de nós.
eu estava diante do peixe que sabia como pegar e que não peguei.
enquanto meus companheiros se preparavam para cortá-lo,
abri a bolsa, tirei minha câmera
olhei pra ele como quem se despede
e me restringi a fotográ-lo.


.


quando acordei lembrei do sonho
e logo me dei conta de que aquele peixe era o meu desejo, aquele peixe era eu.


.


nas minhas águas de rio, de chuva e de torrente
prometo que, peixe-mulher, não me deixarei capturar
porque eu sou o próprio fluxo, o escorregar fugidio das escamas
porque eu sou também a correnteza.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017


perdi para o despertador já umas vinte vezes, ainda estava enredada pelo macio da cama.
reclamei mentalmente quando me virei para o lado procurando uma posição mais confortável,
perdi a meia esquerda. a diferença de calor e textura entre meus pés me fez desadormecer um pouco. de lampejo me recordo de um fragmento de sonho, não tenho certeza se foi algo que passou durante essa noite. eu corria no largo da santa cecília, bem perto de mim ouvia o som dos coturnos se aproximando depressa. me alcançou, me derrubou no chão e me venceu com spray de pimenta na cara. eu tentava fugir do Estado.

.

levanto, repasso na cabeça as coisas que quero fazer no dia.
vou ao banheiro, um vômito enorme do gato me supreende na ardósia branca:
hoje não vai dar para adiar a faxina.
passo café, desadormeço mais.
volto ao banheiro, meu estômago revira protestando contra a aparência feia e o cheiro azedo daquela merda.

.

decido enfrentar a escrita, ou antes, me encontrar com ela.
tem me feito bem retomar esse velho hábito.
penso sobre mim, sobre minhas encruzilhadas.
tantas implicações não podem ser levadas na flauta.
me recordo de minhas próprias formulações, das cintilações de compreensão súbita que esclarecem a vontade:
devo ter atenção com a disposição do desejo. trata-se de um fluxo, quase incapturável.
devo me manter atenta, na forja da ética ei de coincidir com ele.

.

interrompo o devaneio com uma imagem pragmática,
uma pilha de louça suja está me esperando.
hoje não vai dar para adiar a faxina.
não adiei.

.

a louça, as roupas, o pó que se acumulou nas quinas.
e a zi de preguiça, esparramada no sofá com seu pijama rosa -
começamos a pensar no céu como oráculo:
potência, repertório, paisagem, desafio.
tenho energia, sigo para o banheiro
som alto, dancinha marota deslizando no chão molhado.

tenho energia, topo o convite para uma festa na rua.
escolho uma roupa como se eu pudesse ser vista por olhos que não estão presentes, me visto.
fumo um.
caminhamos animadas pelo centro à procura do bloco de carnaval perdido,
a batelada saiu às ruas para homenagear os mortos.
conversamos sobre isso e falávamos ainda sobre os desafios colocados no céu pela lunação em escorpião:
um elogio à morte, um convite a investigá-la, a mobilizá-la.
é preciso morrer um pouco,
para sermos mais capazes de viver muito.

seguimos na busca do bloco perdido pelo centro
é triste a dureza das ruas,
a fome, a miséria, o escárnio da indiferença.
por instantes longos nossa conversa perdeu a leveza.
caminhamos até a estação julio prestes, havia uma fila enorme à espera da osesp.
havia um ônibus da polícia militar parado na calçada,
na minha direção vem caminhando um homem maltrapilho.
ele andava depressa, mas tive tempo de observar os contornos turvos das unhas dos seus pés.
ao cruzar comigo pergunta zombeteiro:
'nesse ônibus vende crack?' - e saí gargalhando.

.

pois que perdemos mesmo o bloco, ou antes, não o encontramos.
paramos para um cerveja
só uma.
seguimos para a casa do povo,
uma porção de conhecidos da zi, uma única conhecida minha.
me lembro que gosto muito dessa sensação de anonimato.
abertura de processo - me explica a companheira.
'aquilo que estamos fazendo e todos estão vendo'
é uma questão solar.
os movimentos não me disseram muito, achei tudo hermético.
me aliviei pela pista dada no último ato:
palavras - me relaciono melhor com elas.
'uma forma composta de aproximações e distanciamentos'
é porque as coincidências às vezes duram um átimo.
e para que possam persistir é preciso abrir espaço.

outras cervejas, musiquinha besta descontraindo a ocasião.
decidimos ir. pegamos o metrô, nos separamos na sé. faço baldeação.
caminho na estação vazia,
me lembro que gosto muito dessa sensação de estar desacompanhada.

.

entro no trem, ele arranca.
antes de chegar no anhangabaú noto que há uma colher de sobremesa debaixo do assento preferencial azul claro.
chego em santa cecília.
o mesmo prédio ornado com luzes também azuis. pela primeira vez vejo o canteiro bem cuidado esprimido entre grades.
o mesmo bar, vou direto pro banheiro.
o chão estava todo mijado, na porta a inscrição:
'como o cu e a buceta das vadias'.
não tinha papel higiênico, pingo por último na calcinha.
passo no caixa:
uma long neck e dois camels brancos.
caminho devagar tentando me recordar das lembranças que tenho espalhado nesses dois quarteirões.
entro no prédio,
um elevador não funciona, outros dois estão parados no sétimo andar.
decido não esperar, subo os dois lances de escada. entro em casa, o gato me cumprimenta.
requento o macarrão que sobrou do almoço:
massa de arroz, portanto sem glúten, molho industrializado de tomate, portanto com traços de pêlo de rato.
revisito textos velhos, vislumbro afetos recentes deitada sobre a colcha azul bordada em flores.
o gato vem, derrama um tanto do seu peso sobre o meu tórax.
sorrio.
não escovei os dentes, pretendo me lembrar de fazer isso antes de dormir.