quinta-feira, 13 de setembro de 2012

para penélope

não tenho tanto assunto que renda um livro.
aquilo que sinto cabe em bem poucas linhas, meus sentimentos passam agora por reduções -
diante do complexo, prefiro o simples. prefiro a textura do cru à palidez do cozido.
é como dizem, fico com os dedos, deixo escapar os anéis.


poucas vezes na vida fui serena. mas agora entendo que a leveza não vem de graça.
a solução para aquilo que pesa não é dividir em duas costas. melhor mesmo é deixar cair.
eu deixo o peso desabar -- desaba, desaba, desaba.
depois que caiu tudo, fico mais leve.

nunca entendi, tão pouco pude explicar, por qual razão um corpo magro como o meu sempre pesou tanto.
agora compreendo, o peso nunca veio da carne.
o problema está nossos ossos, os ossos feitos de chumbo que sustentavam o corpo delgado.

agora, quando tudo desaba, me visto de outra estrutura.
para combinar com a penugem, me firmo sob ossos pneumáticos.


e enquanto você não retorna de tróia,
passo a noite a desmanchar colchas de retalhos, para logo de manhã voltar a tecê-las com mãos firmes e carinhosas.






domingo, 19 de agosto de 2012


entoxico-me de mim e não suporto o outro.
é sendo muito Eu que me afasto do mundo.

entre Eu e eumesma é preciso pôr muita coisa.

entre eu e o outro ainda não sei como haver.

terça-feira, 3 de julho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

oração pra santo antônio

se eu quero te ver bonito, qual é o sentido de procurar o feio em você?

a histeria é a forma mental que funciona como o negativo fotográfico:
captura o contrário de algo como o seu verdadeiro.

não sei como continuar o texto, só não quero finalizá-lo falando das perturbações nervosas advindas do útero.
prefiro falar de como você é bonito e de como me agrada te enxergar assim: você é tão bonito!

me esforço e encontro a porta de saída.
sinto dores musculares e saudades cordiais.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

antisartreana

frequentemente tenho a experiência da não-existência.
eu deixo de existir e o mundo também.

sou a única não-pessoa que conhece o vazio.
estes são os dias do nada.

por entender melhor o que a metafísica desconhece, explico:
a ausência do tudo não é caótica, aqui há ordenamento possível.

não-existir doi um pouco.

.:.







quinta-feira, 7 de junho de 2012

me olho e não entendo exatamente o que vejo. é como se eu fosse uma estranha desconhecida.
visitar o dentro-de-mim é como entrar uma casa antiga: sou repleta de arcaísmos. 

os meus sentimentos usam espartilhos que eles já não suportam mais.
eu tenho sonhos leves como uma caixinha-de-música.

reconheço, eu sou uma mulher romântica.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

hoje eu estou lúcida como uma mãe que chora a morte precoce do filho.

hoje eu estou resignada como uma mulher que passou a vida costurando o botão da camisa do marido infiel.

me sinto impotente e capaz de tolerar algumas dores.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

 eu não sou um pulmão grande, por isso é impossível me tratar de asma.


 eu sou gente, ando na precisança de tratar a alma.



 .:.




 eu sou uma mulher insone e de choro fácil, cultivo nas costas uma corcunda e um par de  asas.
 agulhas e phosphorus 30 devem resolver parte do problema.


 quanto ao par de asas, o processo parece ser irreversível - eu, passarinho.





 [imagino que no ar o peso da alma pese mais leve.]

terça-feira, 17 de abril de 2012

o registro da castração ou sobre a dor que o sapato novo deixou

até dias atrás eu falo falo falo falo falo falo falo falo falo.


hoje eu não falo mais.


da impossibilidade do falo nasceu o limite: até aqui sou eu, depois não sou eu mais.


o eu, calo.


eu calo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

o útero era um ambiente mais parecido com o estômago.
a fertilidade dos ovários se confundiam com criatividade previsível de uma linha de montagem fordista.

- eu não poderia voltar para um lugar de onde nunca havia saído.

.:.


no preenchimento inédito desta grave lacuna ei de tornar meu coração mais leve.

.

[é possível que eu comece a dançar.
desta vez sem obrigação de ser feminina, mas apenas pelo gosto de me ver em movimento.]

sábado, 17 de março de 2012

sobre vibrações e graves lacunas

eu, sempre tão afeita a elas, percebi que palavras não preenchem lacunas.
preciso de algo que ressoe e ocupe o espaço vazio.
para tanto é preciso vibrar: por favor, cordas e tambores.

domingo, 11 de março de 2012

sobre auto-crítica e internalidades

as minhas esquisitices me causam mais espanto e náusea do que as que vejo no mundo.
neste momento de uma reflexão egocentrada, o maior mistério que minha mente (tão acostumada à conveniências e facilidades) percebe sou eu mesma.

eu sou uma esfinge autocanibal.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012