foi numa manhã clara que subi na mangueira do quintal da casa da minha avó.
seu tronco largo se esticava em galhos onde eu me sentava confortavelmente.
não consigo descrever o prazer que sentia ao balançar os pés sem apoio há poucos metros do chão - eu me sentia forte e me divertia com a possibilidade de cair.
eu não consigo descrever também a excitação sensorial que o cheiro da manga me despertava ao arrancá-la da árvore.
no trajeto entre o galho que a abrigava e as minhas narinas reside todos os mistérios do mundo.
só depois de entrar em contato com aquilo.que.não.se.entende - o cheiro da manga - é que eu estava autorizada a mordê-la.
foi ainda bem menina, em cima da árvore, com sumo amarelo escorrendo nos braços, que o cheiro da manga ganhou as minhas mãos e se impregnou.
o caso é cheio de segredos: o cheiro da manga, prisioneiro das minhas mãos, só se manifesta quando eu tenho vontade de escrever e escrevo. o desejo e o exercício do colocar-em-palavras é que exala dos meus dedos o cheiro da manga.
ao escrever eu sinto a força e o prazer da menina que balançava o pé no alto do pé de manga.
ao escrever eu reconstruo o trajeto entre o galho e a minha narina.em.busca.do.cheiro - é o caminho para todos os mistérios do mundo - o lugar onde eu me perco.
ao escrever eu digo da minha alegria de ver e sentir o sumo da fruta escorrer no braço e na roupa.
ao escrever eu sinto o cheiro da manga.
ao escrever eu anuncio a primeira mordida.