sábado, 19 de novembro de 2011

explicome

foi numa manhã clara que subi na mangueira do quintal da casa da minha avó.
seu tronco largo se esticava em galhos onde eu me sentava confortavelmente.
não consigo descrever o prazer que sentia ao balançar os pés sem apoio há poucos metros do chão - eu me sentia forte e me divertia com a possibilidade de cair.
eu não consigo descrever também a excitação sensorial que o cheiro da manga me despertava ao arrancá-la da árvore.
no trajeto entre o galho que a abrigava e as minhas narinas reside todos os mistérios do mundo.
só depois de entrar em contato com aquilo.que.não.se.entende - o cheiro da manga - é que eu estava autorizada a mordê-la.
foi ainda bem menina, em cima da árvore, com sumo amarelo escorrendo nos braços, que o cheiro da manga ganhou as minhas mãos e se impregnou.
o caso é cheio de segredos: o cheiro da manga, prisioneiro das minhas mãos, só se manifesta quando eu tenho vontade de escrever e escrevo. o desejo e o exercício do colocar-em-palavras é que exala dos meus dedos o cheiro da manga.
ao escrever eu sinto a força e o prazer da menina que balançava o pé no alto do pé de manga.
ao escrever eu reconstruo o trajeto entre o galho e a minha narina.em.busca.do.cheiro - é o caminho para todos os mistérios do mundo - o lugar onde eu me perco.
ao escrever eu digo da minha alegria de ver e sentir o sumo da fruta escorrer no braço e na roupa.
ao escrever eu sinto o cheiro da manga.
ao escrever eu anuncio a primeira mordida.

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