sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

aquilo que percebi lavando louça

eu sou como você.
eu não sou você.

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eu sou como eu sou.
você é como você é.

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a minha identidade está para mim assim como a sua identidade está para você.

agradeço ao cosmos pelo fato de a minha individualidade não se alimentar da sua.

reconheço, sem recorrer à subterfúgios, que a minha identidade só se expressa carregada das cores que trago diante da sua alteridade bem quentinha.

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a vida com o outro não é uma chatice espelhada.

[se na vida não tem espaço pra um e pro outro, ela é apertada pros dois]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

tinha uma pedra no meio do caminho.

eu andava distraída pelo caminho e não vi a pedra.
bati o mindinho com tudo e gritei sonoramente:
"merrrrrrrrrrrrrdaa!".

sentada no meio do caminho, apertando o dedo do pé com força, me perguntei
quem teria sido o filho-da-puta que viu a porra da pedra no meio do caminho e não tirou ela dali.


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desculpe o desabafo, é que eu também nasci em itabira.





admissão da baixa-estima

as mãos desastradas não cortam nem costuram.
não servem pra boa música, não pintam um belo quadro.
não dão forma nem ritmo a nada.
minhas mãos barrocas não sabem cortar cebolas.

a única maneira de me redimir da minha absoluta falta de talento é se eu virasse poeta.

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às vezes duvido do meu traquejo com as palavras.
[o caso não tem solução]

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sábado, 19 de novembro de 2011

para o desenhador de portas, with love.

há algum tempo eu estava diante de uma parede branca.
o concreto me impedia de seguir adiante. aquele muro não conhecia limites na horizontalidade, ele era tão comprido quanto a muralha da china.

para sair dali eu deveria atravessar o muro, mas não sabia como fazê-lo.

de repente, onde só havia branco, surgiu cor.
olhei pro lado e você estava ali sorrindo com um giz de cera na mão.

você riscou o muro, você desenhou uma porta.
você criou uma porta onde não havia.

quando eu vi a cor que em há em você,
quando eu vi você com o giz na mão,
quando eu vi que você sorria,
- quando eu vi que em você há cor, que você tinha um giz na mão e que sorria -
senti que poderia caminhar tranquila e o muro já não estava mais ali.


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explicome

foi numa manhã clara que subi na mangueira do quintal da casa da minha avó.
seu tronco largo se esticava em galhos onde eu me sentava confortavelmente.
não consigo descrever o prazer que sentia ao balançar os pés sem apoio há poucos metros do chão - eu me sentia forte e me divertia com a possibilidade de cair.
eu não consigo descrever também a excitação sensorial que o cheiro da manga me despertava ao arrancá-la da árvore.
no trajeto entre o galho que a abrigava e as minhas narinas reside todos os mistérios do mundo.
só depois de entrar em contato com aquilo.que.não.se.entende - o cheiro da manga - é que eu estava autorizada a mordê-la.
foi ainda bem menina, em cima da árvore, com sumo amarelo escorrendo nos braços, que o cheiro da manga ganhou as minhas mãos e se impregnou.
o caso é cheio de segredos: o cheiro da manga, prisioneiro das minhas mãos, só se manifesta quando eu tenho vontade de escrever e escrevo. o desejo e o exercício do colocar-em-palavras é que exala dos meus dedos o cheiro da manga.
ao escrever eu sinto a força e o prazer da menina que balançava o pé no alto do pé de manga.
ao escrever eu reconstruo o trajeto entre o galho e a minha narina.em.busca.do.cheiro - é o caminho para todos os mistérios do mundo - o lugar onde eu me perco.
ao escrever eu digo da minha alegria de ver e sentir o sumo da fruta escorrer no braço e na roupa.
ao escrever eu sinto o cheiro da manga.
ao escrever eu anuncio a primeira mordida.