domingo, 5 de novembro de 2017
1/3 de sonho
éramos um grupo de cinco -
quatro homens e eu, mulher.
sentíamos fome depois de um período de trabalho intenso.
a caminhada até a margem foi longa. estávamos sentados sob a sombra, descansávamos um pouco enquanto decidíamos o que fazer.
sabíamos que naquela altura do rio os peixes são abundantes.
a coisa é que não tínhamos nada com o que pescar.
enquanto eles debatiam o que fazer, me levanto para observar mais de perto aquelas águas claras.
águas agéis, velozes entre pedras onde dava pé.
vou notando o trajeto dos peixes,
por onde fluem, por onde demoram, por onde se perdem.
percebo um canto especialmente estreito, ali certamente seria possível capturar algum.
me demoro um pouco mais para ter certeza.
então tive certeza que poderíamos pegar um peixe ali, mas duvidei instantaneamente de que eu seria capaz de fazê-lo.
convencida da minha incapacidade, nem sequer tentei, de pronto chamei o homem mais afeito aos rios.
indiquei o lugar onde os peixes se confinavam entre o fluxo e as pedras.
ele achou que não e teimou insistindo que não.
depois de se cansar tentando de muitas outras formas,
acabou por me ouvir e pegou um peixe na primeira investida.
nadando o peixe não tinha aquele tamanho todo, parecia ornamental, mas se agigantou imediato quando foi pego.
foi dífícil tirá-lo d'água pesado que era,
um peixe grande mesmo, enorme.
seu corpo era de um alaranjado intenso em fogo, com tonalidades também fortes de azul na cabeça, nas nadadeiras e no rabo.
o homem deu um jeito de amarrá-lo pela boca e içá-lo num galho de uma árvore alta perto de nós.
eu estava diante do peixe que sabia como pegar e que não peguei.
enquanto meus companheiros se preparavam para cortá-lo,
abri a bolsa, tirei minha câmera
olhei pra ele como quem se despede
e me restringi a fotográ-lo.
.
quando acordei lembrei do sonho
e logo me dei conta de que aquele peixe era o meu desejo, aquele peixe era eu.
.
nas minhas águas de rio, de chuva e de torrente
prometo que, peixe-mulher, não me deixarei capturar
porque eu sou o próprio fluxo, o escorregar fugidio das escamas
porque eu sou também a correnteza.
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